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M&A no Brasil entra no segundo semestre com espaço para operações maiores

por Paulo Fernandes Maciel

M&A no Brasil entra no segundo semestre mais seletivo e com espaço para operações maiores

Após movimentar R$166,8 bilhões em M&A no Brasil no primeiro semestre, mercado brasileiro reduziu o número de transações, mas aumentou o capital mobilizado, o que aponta para a priorização de ativos estratégicos

O mercado brasileiro de fusões e aquisições começou 2026 em um ritmo diferente do observado nos últimos anos. No primeiro semestre, foram registradas 593 transações, entre anunciadas e concluídas, que movimentaram R$166,8 bilhões, segundo levantamento da TTR Data. O número de operações de M&A no Brasil caiu 35% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o capital mobilizado cresceu 3%.

Para Daniel Lasse, CEO da Value Capital, boutique de M&A especializada em middle market, é importante analisar essa combinação de indicadores, mais do que a queda isolada no número de transações. “O primeiro semestre não mostra um mercado parado. Aponta para um ambiente de negócios que passou a escolher melhor onde colocar capital. Quando o número de operações diminui e o valor movimentado cresce, temos uma indicação de que compradores estão mais concentrados em ativos que conseguem justificar o investimento pela escala, pela posição competitiva ou pela capacidade de gerar sinergias”, afirma.

M&A no Brasil

Dinâmica do mercado de M&A no Brasil

Na avaliação do executivo, esse comportamento também muda a dinâmica para quem está do outro lado da negociação. “O vendedor deixou de disputar apenas preço. A qualidade do ativo, a clareza da tese estratégica e a capacidade de sustentar crescimento passaram a ter peso ainda maior na formação de valor”, sinaliza Lasse.

Essa seletividade aparece também na distribuição das operações. De acordo com o relatório, Internet, Software & IT Services foi o setor com maior número de transações, com 104 negócios. O recorte mostra que a atividade não está concentrada em uma única indústria, mas revela uma preferência por negócios associados a tecnologia, infraestrutura digital e ativos com potencial de escala.

Para Lasse, essa concentração não deve ser interpretada apenas como efeito de uma tendência tecnológica. “O interesse por tecnologia continua, mas o racional está mais sofisticado. O comprador não está necessariamente buscando uma empresa de tecnologia porque ela pertence a esse setor. Está buscando capacidade de ganhar produtividade, acessar novos mercados, incorporar propriedade intelectual ou acelerar uma transformação que levaria muito mais tempo para ser construída organicamente”, explica.

Outro movimento significativo está no capital estrangeiro. Os Estados Unidos foram o principal país de origem dos compradores estrangeiros no Brasil, com 64 operações no semestre, segundo a TTR Data. Ao mesmo tempo, as empresas brasileiras realizaram oito aquisições nos Estados Unidos e quatro no México. As operações estrangeiras no segmento de Tecnologia e Internet cresceram 1%, enquanto os investimentos de fundos estrangeiros de Private Equity e Venture Capital em empresas brasileiras avançaram 16%.

A régua do investidor estrangeiro

“O capital internacional continua olhando para o Brasil, mas está fazendo isso com uma régua mais alta. O investidor estrangeiro precisa entender não apenas o ativo que está comprando, mas o ambiente regulatório, a estrutura de capital, o câmbio e a capacidade de integração. Um exemplo é a transação que fizemos com nosso cliente SOMPO Seguros, na aquisição da Fator Seguradora, uma companhia brasileira. Isso favorece empresas preparadas para um processo de diligência mais profundo e reduz o espaço para histórias que dependem apenas de expectativa futura”, analisa Lasse.

O comportamento do Private Equity reforça essa leitura. No primeiro semestre, foram 41 operações, que movimentaram R$33,1 bilhões, alta de 105% no capital mobilizado, segundo o relatório. No Venture Capital, foram 106 rodadas, com R$6,4 bilhões investidos, crescimento de 3%. Já as aquisições de ativos somam 151 transações e R$22,9 bilhões, refletindo uma queda de 11% no volume de operações de M&A no Brasil.

A diferença entre esses segmentos sugere que, em um ambiente de maior seletividade, investidores continuam dispostos a colocar volumes expressivos de recursos quando encontram ativos capazes de sustentar uma tese clara de criação de valor.

“O capital não desapareceu. Ele ficou mais exigente. Private Equity, por exemplo, está mostrando que existe disposição para fazer operações relevantes quando o ativo permite construir uma tese de transformação, consolidação ou expansão bem definida”, diz o CEO da Value Capital.

Essa dinâmica também pode abrir espaço para operações de M&A no Brasil a partir de situações de estresse financeiro, especialmente entre fornecedores expostos a empresas em Recuperação Judicial. “Quando avaliamos os credores de companhias em Recuperação Judicial, encontramos casos de grandes empresas brasileiras que, além de registrarem um prejuízo superior a duas vezes o EBITDA em uma única recuperação, tinham cerca de 40% da receita concentrada naquele cliente. É uma situação em que a companhia pode perder receita e caixa ao mesmo tempo. Nesse contexto, uma operação de M&A pode se tornar uma alternativa para preservar a operação, diversificar a carteira de clientes ou recompor capacidade financeira”, explica Lasse.

Cenário

O cenário macroeconômico ajuda a explicar por que essa seleção deve continuar no segundo semestre. O Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto, após iniciar 2026 em 15% e passar por cortes graduais ao longo do primeiro semestre, mas destacou que o ambiente ainda exige cautela e que as expectativas de inflação permanecem acima da meta. Ao mesmo tempo, o segundo semestre acontece sob um ambiente político mais sensível, com as eleições de 2026 entrando no radar das decisões de investimento. Na visão de Lasse, isso não significa necessariamente uma paralisação das negociações.

Incertezas políticas

“Ano eleitoral aumenta a necessidade de previsibilidade, mas não elimina as decisões estratégicas. Empresas que precisam comprar para crescer, consolidar um mercado ou responder a uma mudança estrutural continuarão avaliando oportunidades. O que pode mudar é o tempo necessário para transformar uma intenção em uma transação assinada. Em nossa empresa de gestão, reforçamos muito o momento atual das companhias manterem o olho no caixa”, sinaliza o executivo.

Nesse contexto, Lasse acredita que a retomada, se ocorrer, deverá ser menos generalizada e mais concentrada em determinados setores e perfis de ativos. “Não espero uma volta do mercado baseada simplesmente em quantidade. O segundo semestre pode ser mais ativo justamente porque algumas condições começam a destravar, mas as operações que avançarem serão aquelas em que comprador e vendedor conseguem encontrar uma equação econômica que faça sentido para os dois lados”, conclui o CEO da Value Capital.

Sobre a Value Capital

A Value Capital é uma boutique de assessoria financeira especializada em fusões, aquisições, captação de investimentos e estruturação de dívidas para empresas do Middle Market e grandes companhias. Com uma abordagem estratégica e personalizada, conta com a Lasse’s Consultoria em seu ecossistema para apoiar seus clientes na estruturação de operações que maximizam valor e impulsionam o crescimento sustentável. Atuando em diversos setores da economia, a Value Capital combina expertise em mercado de capitais e uma rede qualificada de investidores para viabilizar transações de alto impacto.

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