Empresas adotam IA, mas preservam modelos antigos de liderança, alerta especialista da Taigéta
Para CEO da Taigéta, transformação perde força quando tecnologia é usada para cobrar produtividade das equipes sem rever centralização, tomada de decisão e papel dos gestores
A inteligência artificial já modifica tarefas, competências profissionais e estruturas de trabalho, mas uma parte importante das empresas ainda preserva modelos de liderança criados para uma realidade anterior à tecnologia. Para Louis Burlamaqui, CEO e cofundador da Taigéta, essa contradição pode impedir que os investimentos em IA produzam mudanças efetivas nos negócios.
Levantamento global da IBM divulgado em 2026 mostra que apenas 25% dos trabalhadores utilizam inteligência artificial regularmente em suas atividades, embora 86% dos CEOs considerem que suas equipes estão preparadas para a tecnologia. Já uma pesquisa do Boston Consulting Group aponta que 74% dos profissionais da linha de frente usam IA diariamente ou algumas vezes por semana, mas muitas organizações ainda não descobriram como transformar o tempo economizado em valor para o negócio.
Segundo Burlamaqui, os números revelam mais do que uma dificuldade de adoção tecnológica. Eles indicam uma diferença entre a percepção da alta liderança e aquilo que efetivamente acontece dentro das empresas.
“A inteligência artificial está sendo usada para aumentar a produtividade, revisar funções e cobrar novas competências dos profissionais. O problema é que poucas organizações estão fazendo a mesma pergunta sobre seus líderes: o que precisa mudar na forma como eles decidem, distribuem poder e conduzem as equipes?”, afirma.
Concentração de inormações
Na avaliação do especialista, muitas empresas incorporaram ferramentas de IA aos processos, mas mantiveram estruturas marcadas por excesso de aprovações, concentração de informações e decisões dependentes de poucas pessoas.
Nesse cenário, a tecnologia acelera a execução, mas não necessariamente melhora a organização. Um processo que já era burocrático pode se tornar apenas uma burocracia mais rápida. Da mesma forma, uma cultura baseada em controle pode utilizar a IA para ampliar cobranças e monitoramento, sem aumentar a autonomia dos profissionais.
“A empresa pode automatizar relatórios, análises e tarefas, mas continuar exigindo que todas as decisões subam pela mesma cadeia hierárquica. Nesse caso, a inteligência artificial não transforma o modelo de gestão. Ela apenas aumenta a velocidade de um sistema que continua centralizado”, explica Burlamaqui.
Para o CEO da Taigéta, um dos principais desafios está no fato de que muitas lideranças construíram sua autoridade sobre o domínio de informações, a experiência acumulada e a capacidade de apresentar respostas. Com a IA, o acesso ao conhecimento se torna mais distribuído, o que exige uma mudança no papel do gestor.
“O líder deixa de ser necessariamente a pessoa que possui todas as respostas. Sua função passa a ser criar critérios, fazer perguntas melhores, avaliar riscos e garantir que a equipe tenha condições de tomar boas decisões. Essa transição mexe com poder e identidade profissional, não apenas com competências técnicas”, diz.
Outro risco é utilizar a tecnologia sem considerar a cultura existente na organização. Em empresas que penalizam erros e discordâncias, profissionais podem evitar experimentar novas ferramentas ou esconder dificuldades. Em ambientes de baixa confiança, o uso da IA pode ser interpretado como ameaça, vigilância ou preparação para cortes.
Por outro lado, organizações que estimulam aprendizado, transparência e autonomia tendem a incorporar a tecnologia como instrumento de apoio às equipes, e não apenas como mecanismo de redução de custos.
“A mesma ferramenta pode produzir resultados completamente diferentes. Em uma cultura madura, a IA ajuda a distribuir capacidade e melhorar decisões. Em uma cultura centralizadora, pode aumentar vigilância, medo e dependência da liderança. A tecnologia não corrige automaticamente a cultura; muitas vezes, ela amplia aquilo que já existe”, afirma.
Transformação precisa chegar à liderança
Para Burlamaqui, as empresas devem avaliar a adoção de inteligência artificial para além do número de ferramentas contratadas ou das horas economizadas. É necessário observar se a tecnologia está mudando a forma como o trabalho é organizado e como as decisões são tomadas.
Entre os pontos que precisam ser revistos estão a quantidade de níveis de aprovação, o grau de autonomia das equipes, os critérios usados para avaliar resultados e a responsabilidade dos líderes sobre decisões apoiadas por sistemas de IA.
“A liderança que usa inteligência artificial para questionar o trabalho dos outros, mas não permite que a tecnologia provoque uma revisão sobre suas próprias práticas, não está conduzindo uma transformação. Está apenas automatizando a hierarquia”, conclui Burlamaqui.
Sobre a Taigéta
A Taigéta é uma plataforma inovadora que une tecnologia e consultoria especializada para transformar cultura em resultados mensuráveis. Baseada na metodologia exclusiva CFR®, a empresa atua na transformação de cultura organizacional, posicionando o potencial das pessoas como vantagem competitiva estratégica para seus clientes.