Por que o Brasil segue ainda dependendo do exterior para processar seus próprios dados de IA
Segundo Eduardo Glazar, CSO da Globalsys, avanço da inteligência artificial no país esbarra em infraestrutura importada e escassez de profissionais especializados esses por causa desses percalços o Brasil segue dependente de tecnologias importadas
A inteligência artificial já está presente na rotina de empresas, órgãos públicos e consumidores brasileiros. Mas, por trás dos aplicativos e sistemas que usam a tecnologia no dia a dia, o Brasil segue dependendo fortemente de outros países para ter acesso à infraestrutura que sustenta essa operação, dos chips à capacidade de processamento, passando pela formação de profissionais especializados.

Segundo Eduardo Glazar, CSO da Globalsys, cerca de 60% das cargas digitais brasileiras são processadas no exterior, enquanto o país responde por apenas 2% do mercado mundial de data centers. Todas as GPUs usadas em território nacional, reforça o executivo, são importadas.
“Quando o dado sai daqui pra ser processado lá fora, soberania vira palavra de discurso”, afirma Glazar.
Energia barata não resolve sozinha
Para o CSO, ampliar a infraestrutura nacional (data centers, chips e energia) é o primeiro passo para reduzir essa dependência. O Brasil tem a favor uma matriz elétrica majoritariamente renovável, considerada um diferencial competitivo capaz de atrair até US$ 33 bilhões em investimentos nos próximos anos.
Mas esse potencial esbarra em outro obstáculo: as tarifas de importação de hardware de tecnologia, que chegam a 100%. Na prática, energia barata não é suficiente se o acesso a chips continua caro.
Ainda assim, Glazar avalia que o país não precisa (nem consegue) no curto prazo competir com as grandes potências tecnológicas na corrida pelos chamados modelos de fronteira. Há espaço, segundo ele, para o desenvolvimento de soluções nacionais voltadas a problemas brasileiros.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões em investimentos ao longo de quatro anos, um valor considerado pequeno diante dos aportes individuais das grandes empresas estrangeiras de tecnologia, mas que pode direcionar recursos para essas soluções locais.
O gargalo também está nas pessoas
Infraestrutura e chips são só parte do problema. Sem profissionais capacitados para projetar, operar e manter essas estruturas, o Brasil corre o risco de ter equipamentos avançados sem mão de obra suficiente para usá-los de forma estratégica.
O descompasso já aparece nos números: o país forma cerca de 53 mil profissionais de tecnologia por ano, enquanto a demanda anual ultrapassa 150 mil vagas. A projeção é de um déficit acumulado superior a 500 mil profissionais até 2029.
Concluindo
Para Glazar, esse é o outro lado da equação da independência tecnológica: de nada adianta ampliar data centers e reduzir a dependência de chips importados se o país não formar profissionais para projetar, operar e evoluir essa infraestrutura. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e os investimentos em data centers, argumenta o executivo, só se traduzem em soberania tecnológica se vierem acompanhados de qualificação da mão de obra. Do contrário, o Brasil segue correndo o risco de ter infraestrutura de ponta sem gente para operá-la de forma estratégica.