Amplificada e até distorcida pelo calor das turbulências, a voz das ruas se torna má conselheira tanto para uma análise mais aprofundada das manifestações que, vez por outra, abalam países, reunindo os mais variados segmentos sob a vaga bandeira de protestos contra o que está aí. É também má conselheira para aqueles que estão no olho do furacão e se sentem compelidos a dar uma resposta imediatista a reivindicações mesmo que não as tenham bem entendidas pulando esse primeiro passo a adoção de soluções efetivas às demandas.
No início, encaradas como protesto contra o aumento das tarifas dos transportes urbanos e, em seguida, vistas como pretexto para ações de vândalos e saqueadores, logo as recentes manifestações se revelaram fruto de uma generalizada insatisfação, que levou milhares de brasileiros às ruas, surpreendendo o Brasil e o mundo, e gerando uma multiplicidade de interpretações, que será depurada pela peneira do tempo. Os cartazes e palavras de ordem referem-se a praticamente toda a série de mazelas e distorções que há longo tempo penalizam a população, a começar pelas caras tarifas de um sistema de transporte público sem qualidade equivalente, logo seguida dos protestos contra a corrupção, a saúde pública, a educação, a insegurança e por aí vai.
Enquanto especialistas e detentores dos poderes públicos se debruçam sobre os fatos e tentam compreendê-los, seria recomendável atentar para as palavras de duas lideranças mundiais, cujo alcance vai além dos 1,2 bilhão de católicos no mundo, segundo o Anuário Pontifício. À época, o então papa Bento 16 traçava um cenário preocupante, a partir da análise da atual tendência de alijar o conceito da ética da finalidade maior do esforço humano, que deveria consistir na busca da felicidade e da justiça nas relações sociais, e não somente o lucro e poder de vários tipos a qualquer preço.
Na encíclica Caridade na verdade, Bento 16 alerta para os riscos da confusão entre fins e meios: o empresário considerará o máximo lucro na produção; o político, a consolidação do poder; o cientista, o resultado de suas pesquisas; e assim por diante. A consequência é a formação de um caldo de cultura onde vicejam incompreensões, contrariedades e injustiças. Pois os fluxos do desenvolvimento (técnico, científico e econômico) se multiplicam em benefício de seus detentores, enquanto as condições de vida das populações que vivem sob tais influxos e quase sempre na sua ignorância permanecem imutáveis e sem assegurar efetiva possibilidade de emancipação. E essa preocupação não é recente no Vaticano. Numa encíclica anterior, a Populorum progressio lançada na Páscoa de 1967, Paulo VI propunha ações estratégicas visando à universalização dos benefícios do desenvolvimento e alertava que as excessivas disparidades econômicas, sociais e culturais provocam, entre os povos, tensões e discórdias, e põem em perigo a paz.
Neste início de século, a escalada dos conflitos entre países, entre etnias, entre comunidades religiosas, entre setores da mesma sociedade encontra um fértil alimento na pobreza e nas desigualdades de todos os tipos. Para Paulo VI, a paz não deve se reduzir à ausência de guerra, fruto do equilíbrio precário das forças, mas constrói-se, dia a dia, na busca da justiça mais perfeita entre os homens. Num momento em que o movimento das ruas sinaliza para um divórcio entre as instituições e ponderáveis parcelas da população, é indispensável considerar que a visão da paz não pode prescindir da ética hoje um valor marginalizado. Bento 16 identifica o grande risco de a paz ser considerada um mero fruto de acordos entre governos ou de iniciativas tendentes a assegurar resultados econômicos. A isso, faz eco Paulo VI, que considerava os povos os autores e primeiros responsáveis pelo próprio desenvolvimento, num esforço que envolve, além dos governos, a atuação de famílias bem estruturadas e de organizações profissionais, responsáveis pela tarefa educativa voltada à formação integral das pessoas.
As palavras dos dois pontífices levam à reflexão e é impossível não concordar com a advertência comum a eles de que o desenvolvimento econômico e social ficaria comprometido sem o respeito à verdadeira escala de valore.
Escala essa ditada pela ética, cuja prática resulta na desejável união do progresso técnico e econômico à construção de uma sociedade mais justa e humana. Em síntese, como concluiu o papa Paulo VI, desenvolvimento é o novo nome da palavra paz.
* Ruy Martins Altenfelder Silva é presidente do Conselho de Administração do
CIEE e da Academia Paulista de Letras Jurídicas, e membro da Academia Cristã
de Letras.