Home Artigos Apatia o sintoma antes de um possível domínio

Apatia o sintoma antes de um possível domínio

por Paulo Fernandes Maciel

Antes das máquinas dominarem a humanidade, o risco mais próximo é a apatia

Bill Gates publicou recentemente um ensaio descrevendo o período atual como o mais turbulento da história da humanidade. Ele acerta em um ponto que considero o mais urgente de toda a discussão sobre inteligência artificial, mas que ainda recebe pouco desenvolvimento: o uso intenso de IA está trazendo uma certa apatia reduzindo o pensamento crítico de quem depende dela no dia a dia, e esse é o risco mais próximo do momento atual, muito mais do que qualquer cenário de máquinas superando a humanidade. Afinal, essa ameaça não chega com alarde ou destruição, mas envelopada em extrema conveniência.

Sinais

A prova disso está nos próprios números de adoção da tecnologia. Estamos no quarto ano de ChatGPT, e o que se vê nas empresas que adotaram IA é gente trabalhando mais e laboratórios cada vez mais ricos, mas nenhuma disrupção real de negócio, o que é o contrário do que se esperava.

Em vez de usar a IA para provocar disrupção em seus próprios modelos, a maioria das empresas está usando a tecnologia apenas para melhorar o fluxo de trabalho que já existia. Faz sentido, já que pensamento disruptivo nunca foi maioria, mas isso também revela o sintoma mais claro do problema. Quando a IA entrega uma resposta pronta, boa parte das pessoas para de perguntar se existe uma resposta melhor.

Apatia

A apatia separando e definindo relevantes

É isso que separa quem vai continuar relevante nos próximos anos de quem vai ficar para trás. A tarefa em si a IA já resolve, mas o insubstituível é o insight que uma pessoa aplica em cima do que a IA entrega, a pergunta que ela sabe fazer, o julgamento que ela exerce sobre o resultado, a decisão de rejeitar uma resposta pronta e buscar uma melhor. Delegar a tarefa virou commodity, e trazer inteligência sobre o que foi delegado é a única contribuição humana que continua tendo valor.

Mão de obra X IA

Essa diferença entre a entrega bruta da tecnologia e a real necessidade de valor humano ajuda a explicar por que os diagnósticos mais alarmistas sobre o desemprego em massa falham ao tentar universalizar a realidade de poucas nações. Substituir um atendente por IA compensa economicamente em países onde o trabalho humano já é caro, caso dos Estados Unidos, cujo profissional pode custar entre 2.500 e 3.000 dólares por mês, enquanto uma solução de IA a 250 dólares representa apenas 10% desse custo, o que fecha a conta.

No Brasil, contudo, o mesmo profissional pode ganhar o equivalente a 2.000 reais e a mesma tecnologia custaria 1.300 reais — uma matemática que simplesmente não convence uma empresa a fazer a troca. O deslocamento acelerado de empregos por IA é um risco concentrado em poucas economias de alta renda, mas a apatia, o hábito de aceitar a resposta pronta sem questionar, essa sim é uma ameaça universal.

Isolamento e individualismo

Da mesma forma que a matemática do trabalho é distorcida por um olhar estritamente focado nos Estados Unidos, a ideia de que a IA substituirá as conexões humanas por companheiros artificiais parte de uma premissa culturalmente enviesada. Essa leitura só se sustenta em sociedades já marcadas pelo isolamento e pelo individualismo, sem encontrar respaldo na realidade da América Latina ou da maior parte do mundo, onde o vínculo social, o contato presencial e a dinâmica comunitária continuam sendo pilares estruturais da vida em sociedade.

Pensamento crítico

Um plano para essa nova era, como o próprio Gates defende, não pode se limitar a conter os riscos mais visíveis, como perda de emprego e uso malicioso da tecnologia. Precisa incluir, com a mesma prioridade, o cultivo deliberado do pensamento crítico como competência central de trabalho e de vida. É esse hábito de continuar pensando criticamente, e não a tecnologia em si, que vai definir o que sobra de autonomia humana daqui para frente.

  • Harold Schultz é diretor de produto da Labrynth, plataforma de IA que atua com compliance e processos regulatórios nos EUA

Artigo por Harold Schultz

Você também pode gostar

Deixe um Comentário

Ao navegar neste site, você aceita os cookies que usamos para melhorar sua experiência. Aceito Mais informações