Antes das máquinas dominarem a humanidade, o risco mais próximo é a apatia
Bill Gates publicou recentemente um ensaio descrevendo o período atual como o mais turbulento da história da humanidade. Ele acerta em um ponto que considero o mais urgente de toda a discussão sobre inteligência artificial, mas que ainda recebe pouco desenvolvimento: o uso intenso de IA está trazendo uma certa apatia reduzindo o pensamento crítico de quem depende dela no dia a dia, e esse é o risco mais próximo do momento atual, muito mais do que qualquer cenário de máquinas superando a humanidade. Afinal, essa ameaça não chega com alarde ou destruição, mas envelopada em extrema conveniência.
Sinais
A prova disso está nos próprios números de adoção da tecnologia. Estamos no quarto ano de ChatGPT, e o que se vê nas empresas que adotaram IA é gente trabalhando mais e laboratórios cada vez mais ricos, mas nenhuma disrupção real de negócio, o que é o contrário do que se esperava.
Em vez de usar a IA para provocar disrupção em seus próprios modelos, a maioria das empresas está usando a tecnologia apenas para melhorar o fluxo de trabalho que já existia. Faz sentido, já que pensamento disruptivo nunca foi maioria, mas isso também revela o sintoma mais claro do problema. Quando a IA entrega uma resposta pronta, boa parte das pessoas para de perguntar se existe uma resposta melhor.

A apatia separando e definindo relevantes
É isso que separa quem vai continuar relevante nos próximos anos de quem vai ficar para trás. A tarefa em si a IA já resolve, mas o insubstituível é o insight que uma pessoa aplica em cima do que a IA entrega, a pergunta que ela sabe fazer, o julgamento que ela exerce sobre o resultado, a decisão de rejeitar uma resposta pronta e buscar uma melhor. Delegar a tarefa virou commodity, e trazer inteligência sobre o que foi delegado é a única contribuição humana que continua tendo valor.
Mão de obra X IA
Essa diferença entre a entrega bruta da tecnologia e a real necessidade de valor humano ajuda a explicar por que os diagnósticos mais alarmistas sobre o desemprego em massa falham ao tentar universalizar a realidade de poucas nações. Substituir um atendente por IA compensa economicamente em países onde o trabalho humano já é caro, caso dos Estados Unidos, cujo profissional pode custar entre 2.500 e 3.000 dólares por mês, enquanto uma solução de IA a 250 dólares representa apenas 10% desse custo, o que fecha a conta.
No Brasil, contudo, o mesmo profissional pode ganhar o equivalente a 2.000 reais e a mesma tecnologia custaria 1.300 reais — uma matemática que simplesmente não convence uma empresa a fazer a troca. O deslocamento acelerado de empregos por IA é um risco concentrado em poucas economias de alta renda, mas a apatia, o hábito de aceitar a resposta pronta sem questionar, essa sim é uma ameaça universal.
Isolamento e individualismo
Da mesma forma que a matemática do trabalho é distorcida por um olhar estritamente focado nos Estados Unidos, a ideia de que a IA substituirá as conexões humanas por companheiros artificiais parte de uma premissa culturalmente enviesada. Essa leitura só se sustenta em sociedades já marcadas pelo isolamento e pelo individualismo, sem encontrar respaldo na realidade da América Latina ou da maior parte do mundo, onde o vínculo social, o contato presencial e a dinâmica comunitária continuam sendo pilares estruturais da vida em sociedade.
Pensamento crítico
Um plano para essa nova era, como o próprio Gates defende, não pode se limitar a conter os riscos mais visíveis, como perda de emprego e uso malicioso da tecnologia. Precisa incluir, com a mesma prioridade, o cultivo deliberado do pensamento crítico como competência central de trabalho e de vida. É esse hábito de continuar pensando criticamente, e não a tecnologia em si, que vai definir o que sobra de autonomia humana daqui para frente.
- Harold Schultz é diretor de produto da Labrynth, plataforma de IA que atua com compliance e processos regulatórios nos EUA