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IA não substitui pessoas, mas muda o papel da liderança

por Paulo Fernandes Maciel

IA não substitui pessoas, mas muda o papel da liderança nas instituições, apontam especialistas na CEO Conference AHK Paraná

Debate promovido pela AHK Paraná em torno do tema IA não substitui pessoas, reuniu grandes nomes da economia, tecnologia e gestão para discutir competitividade, cultura e governança na transformação digital

Antes imaginada como um ativo para o futuro, a inteligência artificial já se tornou uma questão concreta de estratégia, competitividade e liderança, com ações que devem ser tomadas o quanto antes por executivos e profissionais no mundo corporativo. Esse foi um dos principais pontos que emergiram da 4ª CEO Conference AHK Paraná, realizada em setembro, em Curitiba, com o tema “O Match: IA e Humanização”.

Em vez de se limitar a exemplos de ferramentas ou aplicações tecnológicas, o encontro colocou em debate uma pergunta que mobiliza e preocupa as empresas brasileiras: como incorporar inteligência artificial sem perder de vista as pessoas, a cultura e a capacidade humana de tomar decisões?

IA não substitui pessoas

Para Augusto Michells, gerente regional da AHK Paraná, guiar valores e novas práticas é justamente um dos objetivos de agregar lideranças empresariais em torno de temas que não se restringem às necessidades de um setor específico. “A CEO Conference reúne um público bastante qualificado, decisor, e traz pessoas de notório saber dentro das suas áreas de atuação. São líderes que dirigem organizações de destaque e que acabam influenciando toda uma cadeia produtiva. É uma oportunidade para falar de tendências e projeções e levar essas reflexões para a realidade das empresas.”

IA não substitui pessoas mas ajuda a aprimorar o conhecimento

A discussão mostrou que a transformação provocada pela IA não pode ser analisada isoladamente. Para Afonso Lamounier, vice-presidente para Assuntos Corporativos da SAP América Latina, a tecnologia precisa estar subordinada à estratégia definida pelas pessoas.

Durante sua apresentação, Lamounier chamou atenção para o risco de empresas adotarem a inteligência artificial em velocidade inadequada e criarem um gap de competitividade. Ao mesmo tempo, destacou que a IA não substitui competências como pensamento crítico, criatividade, empatia e julgamento ético.

Uma das provocações deixadas aos líderes foi convidar o público a avaliar se a IA já é uma pauta estratégica da organização ou se continua restrita à área de tecnologia. “A IA é linguagem estratégica. Não é a solução para tudo. Mas empresas, pessoas e líderes é que vão decidir. Não é a IA que vai decidir.”

Para Lamounier, a transformação começa no topo. CEOs e conselheiros precisam compreender a tecnologia para conseguir orientar sua adoção dentro das organizações, além de estabelecer políticas de uso responsável, governança e capacitação das equipes.

IA não substitui pessoas

Cultura pode ser o diferencial competitivo

A experiência da WEG mostrou uma segunda dimensão dessa transformação. Marcelo Pinto, General Manager da WEG Digital Solutions e CEO da WEG PPI-Multitask, apresentou exemplos da jornada de digitalização da companhia e destacou que tecnologia, por si só, não garante resultados.

Na avaliação do executivo, a cultura organizacional é o elemento que permite transformar tecnologia em ganho efetivo de produtividade e inovação. “Não vai haver sucesso com inteligência artificial sem você dar o protagonismo para o ser humano.”

Na WEG, segundo Pinto, a adoção de IA parte de uma trajetória anterior de melhoria contínua, gestão participativa, digitalização e conhecimento acumulado pelos profissionais. A empresa utiliza esse conhecimento para desenvolver soluções de inteligência artificial mais aderentes aos processos reais de suas fábricas.

O executivo ressaltou ainda que o desenvolvimento de agentes de IA para a indústria exige a participação de equipes multidisciplinares, incluindo profissionais de tecnologia e especialistas que conhecem profundamente os processos.

A experiência reforça uma das conclusões centrais da conferência, segundo a qual tecnologia pode ser adquirida, mas cultura, conhecimento e propósito precisam ser construídos dentro das organizações.

A discussão sobre IA também foi ampliada para o cenário econômico e geopolítico. Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia da Tendências Consultoria, apresentou um panorama marcado pela disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, pelo aumento da demanda global por capital e por um ambiente de maior imprevisibilidade.

Para ela, compreender esse contexto é fundamental para que as empresas identifiquem riscos, mas também novas oportunidades de negócios. “O evento foi ótimo, porque ele deu a possibilidade de a gente explorar questões geopolíticas, trazendo uma disputa muito grande entre dois grandes países, Estados Unidos e China, focada em tecnologia. Fomos tratando esse assunto, como a tecnologia está sendo a realidade das empresas, do dia a dia das empresas.”

No caso brasileiro, Alessandra destacou a necessidade de reduzir vulnerabilidades internas, especialmente diante de um cenário internacional de juros mais elevados. Ao mesmo tempo, apontou oportunidades relacionadas à diversificação de mercados, infraestrutura, transição energética e recursos estratégicos.

Para a economista, a discussão promovida pela AHK Paraná tem um papel importante por conectar análises amplas às decisões empresariais. “A AHK traz essa liderança, essa discussão, os temas quentes do momento, e isso possibilita que essas lideranças tenham acesso a essas reflexões e tragam para as suas realidades.”

O desafio agora é transformar reflexão em estratégia

A mensagem comum entre as apresentações é a percepção de que a inteligência artificial não deve ser tratada apenas como uma ferramenta de eficiência. Ela já está alterando a forma como empresas pensam seus processos, desenvolvem produtos, capacitam profissionais e tomam decisões.

Essa nova realidade traz para os líderes desafios como definir onde a IA realmente gera valor, preparar as equipes, proteger informações, estabelecer critérios de governança e preservar os elementos humanos que não podem ser automatizados.

A conferência também reforçou que a velocidade da transformação exige aprendizado contínuo e que a liderança precisa estar preparada para essa mudança e desenvolver um nível mínimo de alfabetização em IA para orientar o restante da organização.

No encerramento do debate, o moderador André Caldeira, fundador e CEO do Grupo Propósito, resumiu a importância do trabalho coletivo diante dessa transformação. A provocação deixada aos participantes foi que não existem “super-homens” ou “mulheres-maravilha” capazes de enfrentar sozinhos os desafios da nova realidade. O caminho passa pela combinação de bons líderes, equipes e conselhos.

Sobre a AHK Paraná

Estimular a economia de mercado por meio da promoção do intercâmbio de investimentos, comércio e serviços entre a Alemanha e o Brasil, além de promover a cooperação regional e global entre os blocos econômicos. Essa é a missão da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK Paraná), entidade atualmente dirigida por Lourdes Manzanares, a primeira diretora mulher da AHK Paraná.

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