5G, IA, drones e Bodycams com reconhecimento facial ampliam integração tecnológica na segurança pública
Bodycams com reconhecimento facial, drones, redes privativas 4G e 5G, leitura de placas, inteligência artificial e centrais móveis mostram como conectividade e dados estão redesenhando as operações
A transformação digital da segurança pública está deixando de ser uma discussão concentrada na quantidade de câmeras instaladas nas cidades para avançar sobre um desafio mais complexo: como conectar equipamentos, sistemas, bases de dados, centrais de comando e agentes em campo para que a informação possa efetivamente apoiar uma operação. Essa mudança aparece entre as tecnologias apresentadas no evento COP International 2026, realizado de 11 a 13 de agosto, no São Paulo Expo.
Soluções demonstradas por All Control Soluções Inteligentes, C2H Solutions, BX2 Tecnologia e Trivale Tecnologia mostram diferentes frentes desse movimento: câmeras corporais que reconhecem rostos e placas, sistemas que acompanham veículos procurados, redes privativas para conectar equipes e equipamentos e plataformas capazes de reunir diferentes tecnologias em uma mesma central.

Algumas dessas aplicações como as Bodycams já estão em operação no país.
No Pará, uma nova geração de câmeras corporais (Bodycams) começou a ser utilizada com reconhecimento facial e leitura de placas. No Ceará, sistemas de monitoramento podem acompanhar veículos roubados a partir do registro da ocorrência. Na Paraíba, alertas gerados pelas câmeras podem chegar diretamente aos agentes nas viaturas. Em Minas Gerais, uma central móvel de monitoramento foi modernizada para utilização em grandes operações.
Bodycams passam a reconhecer rostos e placas
Uma das novidades apresentadas no COP International está em um equipamento que já faz parte da rotina de diferentes forças policiais: a câmera corporal. A All Control Soluções Inteligentes apresenta uma nova geração de bodycams utilizada pela Polícia Militar do Pará que incorpora reconhecimento facial e leitura de placas no próprio equipamento.
Segundo Breno Leite, diretor executivo da empresa, o estado é atualmente o único do Brasil com uma implantação que reúne os dois recursos integrados às câmeras corporais. “Hoje a Polícia Militar do Pará é pioneira nas câmeras corporais com integração de placas, de leitura de placas e leitura facial. No Brasil, hoje é o único estado que está implantado”, afirma Leite.
A Polícia Militar paraense utiliza câmeras corporais (Bodycams) há cerca de três anos, mas uma nova etapa do projeto começou recentemente. Segundo o executivo, há aproximadamente 60 dias entrou em operação o sistema com os novos recursos embarcados.
Uma das diferenças está no processamento das informações. De acordo com Leite, as próprias câmeras possuem tecnologia para realizar reconhecimento facial e leitura de placas, reduzindo a necessidade de enviar continuamente imagens para outro sistema responsável pela análise. “O próprio sistema na câmera já faz essa busca, garante um fluxo mais leve, economia no chip de dados, mais assertivo e mais rápido. Consegue dar uma pronta resposta para o policial que estiver usando”, explica.

Durante uma abordagem, por exemplo, o rosto captado pode ser confrontado com informações disponíveis nos sistemas integrados. Caso exista uma correspondência que demande atenção, um alerta é enviado ao próprio equipamento utilizado pelo policial.
“Ela gera o alerta na câmera na hora para o policial. Aí tem o protocolo de abordagem, verificar se é a pessoa mesmo que está sendo procurada, enfim, o procedimento operacional padrão de cada força policial”, afirma Leite. A mesma lógica pode ser aplicada à identificação de placas de veículos.
IA também permite fazer buscas por descrição
Outra novidade apresentada pela All Control é o AcuSeek, sistema de inteligência artificial voltado à busca em imagens. Em vez de depender apenas de parâmetros previamente configurados nas câmeras, a ferramenta permite procurar pessoas ou situações a partir de características informadas pelo operador.
“Eu posso criar um alerta para pessoas que passaram sem camisa e com tatuagem. Posso criar um alerta de onde uma pessoa passou com uma criança no colo. Ela vai me gerar todos os vídeos que essa pessoa tem”, exemplifica Leite.
As bodycams também contam, segundo a empresa, com recursos de transcrição automática. O sistema pode identificar palavras-chave utilizadas durante uma ocorrência e produzir descrições do conteúdo registrado, facilitando a organização e a posterior localização das imagens.
No caso do Pará, os resultados da nova integração ainda estão sendo medidos. A All Control não divulga neste momento indicadores relacionados a prisões ou identificação de pessoas procuradas a partir dos novos recursos.
Segundo Breno Leite, a Polícia Militar está preparando um relatório para avaliar a aplicação da tecnologia e os benefícios obtidos com o novo sistema.
Redes próprias para conectar a operação
Se as câmeras ganham capacidade de processamento, outra questão permanece essencial para uma operação conectada: garantir que policiais, sensores, equipamentos e sistemas consigam se comunicar.
É nesse ponto que a Trivale Tecnologia apresenta o TRV-101 MAX, estação rádio-base outdoor desenvolvida e fabricada no Brasil para a criação de redes privativas 4G e 5G.
Uma única unidade pode conectar até 500 dispositivos, incluindo celulares, tablets, câmeras, sensores e equipamentos de Internet das Coisas (IoT).
Para Darío Prado, diretor de Novos Negócios da Trivale Tecnologia, a solução funciona, na prática, como uma pequena operadora dedicada. “O TRV é como se fosse uma minioperadora para operar nas frequências de 4G e 5G. Você consegue montar com esse equipamento uma rede privada para poder monitorar todos os seus ativos, todo dispositivo de IoT, criar uma rede de celular privada para poder atender toda a sua empresa”, afirma.
Na segurança pública, a proposta permite criar uma infraestrutura comum para conectar Polícia, Corpo de Bombeiros, Guarda Civil e Defesa Civil dentro de uma mesma rede privativa. Outro diferencial está na possibilidade de instalar a tecnologia em regiões com cobertura insuficiente das operadoras tradicionais.
A Trivale desenvolveu inclusive uma configuração móvel, instalada em carreta e com autonomia energética, que pode estabelecer uma área temporária de cobertura.
“Eu posso levar essa carreta móvel, ligo o meu equipamento, ele cria uma rede 5G ali, todo mundo se fala, todo mundo opera”, explica Prado.
A aplicação abre possibilidades para áreas rurais, rodovias, fronteiras, grandes eventos e situações emergenciais. Quando configurado como uma infraestrutura isolada, o tráfego de dados pode permanecer dentro da própria rede privativa e, caso seja necessário acesso externo, receber conexão por operadora ou satélite.
Do 190 à equipe em campo
Se a conectividade cria os caminhos pelos quais as informações circulam, outra frente está em transformar imagens e registros em alertas capazes de apoiar a atuação policial.
No COP International, a BX2 Tecnologia apresenta soluções que incluem leitura automática de placas, reconhecimento facial, monitoramento de tornozeleiras eletrônicas e sistemas de apoio ao combate à violência doméstica e ao cumprimento de medidas protetivas.
Entre as novidades estão óculos inteligentes capazes de transmitir imagens e realizar reconhecimento facial em tempo real. Um dos exemplos dessa integração está no cercamento eletrônico de veículos. Diferentemente de um radar dedicado à fiscalização de velocidade, câmeras distribuídas pelas cidades e rodovias realizam a leitura das placas para que as informações possam ser cruzadas com registros de ocorrências e outras bases de dados.
“Ele não é focado em velocidade, não é para multa. Ele é para monitorar o movimento de veículos e combater, por exemplo, roubo e furto de veículos”, explica Ademar Fontes, CEO da BX2. Segundo o executivo, no Ceará, quando o roubo de um veículo é comunicado ao 190 e a placa é registrada, o sistema passa a acompanhar automaticamente as leituras daquele veículo realizadas pelas câmeras.
A companhia relata casos de recuperação em menos de cinco minutos entre a comunicação da ocorrência, a passagem do automóvel por uma câmera e a abordagem.
Na Paraíba, a tecnologia conecta o sistema utilizado pelo 190, a central responsável pelo despacho e os profissionais nas viaturas.
Quando uma câmera identifica um veículo relacionado a uma ocorrência, o agente pode receber no aplicativo a notificação, a imagem e o local em que ele foi detectado.
“O agente de campo na viatura recebe um aplicativo, uma notificação, vê a foto do veículo, sabe onde o veículo passou e começa uma abordagem, uma perseguição para abordagem do veículo. Então a gente atua de ponta a ponta na Paraíba”, afirma Fontes.
Sistemas diferentes, uma única central
Outra frente dessa transformação está na integração de tecnologias adquiridas em diferentes períodos e fornecidas por fabricantes distintos. A C2H Solutions apresenta no COP soluções que combinam videomonitoramento, controle de acesso, infraestrutura, serviços e a plataforma da ISS, destinada à gestão e integração de diferentes dispositivos e sistemas de segurança.
Luis Giroto, diretor de Canais da ISS, define o software como um “orquestrador”.
Criada originalmente para videomonitoramento, a plataforma incorporou analytics e integrações com outros sistemas ao longo de aproximadamente três décadas. “É muito mais do que uma plataforma só de videomonitoramento. Começou com isso, nasceu com isso 30 anos atrás, mas evoluiu demais nesse período”, afirma Giroto.
Para o executivo, uma das características centrais da tecnologia está na possibilidade de trabalhar com soluções de diferentes fornecedores. “Eu diria que a grande força, o grande benefício da ISS hoje é a flexibilidade de integração com terceiros.”
Essa característica ganha importância no setor público, onde cidades e estados podem acumular câmeras, servidores e equipamentos provenientes de contratos e períodos distintos.
A plataforma permite incorporar componentes diferentes à mesma estrutura operacional. E a integração pode ir além das câmeras. Segundo Giroto, iluminação, radares e até sistemas de climatização podem ser incorporados. “Você transforma uma central de monitoramento de segurança em uma central de inteligência e controle, para qualquer tipo de aplicação, e não só no mundo de segurança patrimonial”, explica.
Centrais de monitoramento também ganham mobilidade
A C2H também destaca um projeto realizado para a segurança pública de Minas Gerais, no qual uma carreta de monitoramento já utilizada pelo governo estadual em grandes eventos passou por modernização tecnológica.
“O governo de Minas tinha uma carreta já antiga que utilizava em grandes eventos. E aí nós tivemos a oportunidade de reformar essa carreta, modernizar, colocar videowall, criar PTZ. A gente inaugurou ela semana passada e tem mais três carretas que a gente está buscando também reformar”, conta Cayron Fernandes, sócio-diretor da C2H Solutions.
A estrutura funciona como uma central de monitoramento sobre rodas e pode ser deslocada para eleições, Carnaval, shows, manifestações e outras situações que exijam acompanhamento temporário e reforçado.
Segurança pública amplia integração entre dados e operação
Embora atuem em diferentes pontos da infraestrutura, as tecnologias apresentadas no COP têm uma característica em comum: aproximar a informação da operação policial.
No Pará, a própria bodycam passa a reconhecer rostos e placas e pode gerar alertas durante uma abordagem. No Ceará e na Paraíba, câmeras, registros de ocorrências e agentes em campo são conectados para acompanhar veículos.
Redes privativas podem manter equipes e equipamentos em comunicação mesmo em locais com cobertura convencional insuficiente. Plataformas de integração, por sua vez, reúnem tecnologias de diferentes fabricantes em uma mesma estrutura de monitoramento. A evolução também amplia o papel das câmeras. Além de produzir imagens para consulta posterior, equipamentos começam a incorporar recursos de análise, busca e geração de alertas, enquanto softwares e redes de comunicação conectam essas informações às centrais e às equipes em campo.
Os projetos apresentados no COP International 2026 indicam que essa integração já começa a aparecer em operações estaduais e municipais. No caso das tecnologias mais recentes, como as novas funcionalidades das bodycams implantadas no Pará, a próxima etapa será acompanhar os indicadores produzidos pelas próprias forças de segurança e avaliar seus resultados na operação.